segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Joana Antunes sempre o odiara

Sempre o odiara. Joana Antunes nunca suportou a cabeça raspada e o corpo cheio de músculos saltados que formavam Laucho Gonçalves.  Achava-o um idiota, e sentia muito que um corpo tão bonito dividisse a vida com tão pouco cérebro. Não que ele fosse burro, pensava, era preguiçoso e tentava se disfarçar de inteligente, o que piorava muito sua situação aos olhos de Joana. Enfim, dividir a sala com ele e outros tantos rapazes mais interessantes, no curso que fazia na Universidade Católica de Vila Rica, era uma coisa que suas frescuras podiam suportar.
Até o dia em que, por destino da vida acadêmica, Joana e os músculos de Laucho pararam em um mesmo grupo. Eles deviam apresentar um seminário sobre a vida social dos corais que povoavam a chafariz da prefeitura.  Aquela disciplina era das poucas que faltavam para as almejadas férias de Joana. Passou a se preparar toda, e o fato de dividir com o rapaz o grupo nem era tão relevante quanto suas férias longe da vida infundada vivida naquele fim de mundo.
Ótimo. Após dias de estudo estava confiante de sua parte. Era assim que se formavam os alunos de Vila Rica: em partes. Tudo era dividido, inclusive o dinheiro gasto com a corrupção das provas. Estava finalmente pronta, ansiosa por sua hora de entrar frente às fotos que ilustravam o desleixo da prefeitura com aqueles inusitados corais.  Começou a falar tranqüila e inteligente, despertando a inveja das companheiras, uma coisa muito comum na juventude de Joana e que não durou até o habito de apreciar o vôo dos lençóis.
Quando próximo ao fim de seu exemplo maior que faria com que todos lacrimejassem a  história do chafariz, Laucho cutucou-a  e, frente a todos, disse: Tá bom, né? Seu tempo acabou. Joana se perdera completamente. Não sabia mais cargas d’água do seu objetivo. Viu-se por um minuto sendo olhada por todos esperando uma resposta. Não conseguiu terminar sua parte. E parou ali mesmo.
Continuaram os outros com suas pesquisas, e ela, atônita, nada mais falou. O ódio daquele ser se transformou em um ódio maior. Se fosse homem tinha lhe socado o rosto na mesma hora.  Não era. Depois de o trabalho passar todo em sua frente como um filme que não damos atenção, Joana ouviu as considerações finais do professor, arrumou suas coisas e postou-se no estacionamento a esperar o odiado.
Viu-o se despedir dos amigos, e caminhar sozinho rumo ao carro. Ao colocar a chave no buraco, sentiu um respirar no lombo, virou–se; tinha na frente uma imagem amedrontadora de mulher capaz de morte. Joana aproximou-se e, rosto a rosto, disse o que tanto formulara desde que saíra da sala: Você é um burro! Corto-lhe a garganta da próxima vez que vier interferir no meu mundo. E quando estava preparando uma joelhada no precioso do rapaz, sentiu um calor e uma fraqueza que a fez desmontar. De fato, aqueles músculos tão de perto eram mais acolhedores e aquele ser bruto e burro parecia, de repente, uma coisa que nem ela saberia explicar.
Essa foi uma das muitas que Joana percebeu que seu destino na terra era o amor. O joelho já não mais o atacava, agora, o acariciava. Ele, sem entender, caiu com Joana no banco do carro, e fizeram o amor encher os vidros do veículo de suor e gozo.  O rapaz jamais entenderia como e porquê ganhara aquela noite na sua vida juvenil, apenas fez-se homem e deixou Joana fazer o resto.
Ao terminar, Joana sem nada dizer atravessou o estacionamento vazio, acomodou-se na sua lambreta e partiu na estrada, levando o barulho do radiador. Enquanto isso, no carro, o rapaz recuperava o fôlego sozinho. No dia seguinte Joana o odiaria ainda mais.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Procura-se o Antídoto

Tá tudo dando errado.
Eu to vivendo duas vidas paralelas. Parece que to com a cabeça em realidades diferentes,sabe?
Eu passo a tarde fazendo um trabalho e simplesmente esqueço de entregar.
Vou até a UFAC a tarde só para arranjar uma declaração e esqueço de pegar.
Sei lá. Meu Deus.O que será?
Gente, eu acho que vou reprovar. Em tudo. Não só na faculdade. Vou reprovar nas pessoas que tanto gosto e admiro, talvez com elas já esteja reprovado. Eu não sei. Simplesmente não sei.
Se alguém souber o remédio, por favor, me avise.
Eu queria viajar, sabe?
Conhecer Kosovo, passar um tempo lá.



Um lugar que sequer é reconhecido pelo Brasil como país (ótimo, quem é que precisa ser reconhecido pelo Brasil para ser independente), a mais nova nação do mundo. Recém-independente.



 Lá tá tendo uma revolução cultural, os caras estão atrás de uma identidade própria. Talvez lá eu consiga influenciar as pessoas a viverem com a cabeça em duas realidades diferentes, onde os professores aceitem tudo por e-mail, levando em conta a cabeça atordoada dos alunos. E as pessoas fossem menos preocupadas com os filhos e os horários para descansar.




















Além disso, lá é frio e dizem ter o melhor cappuccino do mundo.
Talvez minha temporada lá, seja a solução.

sábado, 31 de outubro de 2009

Poesia

O Tempo

A gente se deu tão bem
Que o tempo sentiu inveja
Ele ficou zangado e decidiu
Que era melhor ser mais veloz
E passar rápido pra mim

Parece que até jantei
Com toda a família e sei
Que seu avô gosta de discutir
E sua avó gosta de ouvir
Você dizer que vai fazer

O tempo engatinhar
Do jeito que eu sempre quis
Se não for devagar
Que ao menos seja eterno assim


Espero o dia que vem
Pra ver se te vejo
E faço o tempo esperar como esperei
A eternidade se passar
Nos meus segundos sem você

Agora eu já nem sei
Se hoje foi anteontem
Eu me perdi lembrando o teu olhar
O meu futuro é esperar
Pelo presente de fazer

O tempo engatinhar
Do jeito que eu sempre quis
Distante é devagar
Perto passa bem depressa assim

Pra mim, pra mim


Se o tempo se abrir talvez
Entenda a razão de ser
De não querer sentar pra discutir
De fazer birra toda vez
Que peço ao tempo pra me ouvir

A gente se deu tão bem
Que o tempo sentiu inveja
Ele ficou zangado e decidiu
Que era melhor ser mais veloz
E passar rápido pra mim


Eu que nunca discuti o amor
Não vejo como me render
Ah! Será que o tempo tem tempo pra amar
ou só me quer tão só?

E então, se tudo passa em branco eu vou pesar
A cor da minha angústia
e no olhar
Saber que o tempo vai ter que esperar

O tempo engatinhar
Do jeito que eu sempre quis
Se não for devagar

Que ao menos seja eterno assim

Movéis Coloniais de Acajú

domingo, 25 de outubro de 2009

Nem tudo foi do jeito que era pra ser. Não teve amor. Não teve paz. Eu imaginava uma coisa diferente, com muita luz, muita nuance, com situações estranhas nos aproximando. Ah, eu imaginava o céu bem próximo quando nos beijássemos. Imaginava o seu peito batendo perto dos meus pensamentos, enquanto descansávamos nossa felicidade no chão da sala. Lá fora podia chover, fazer sol, ventar nada importava. E eu me sentiria com uma certeza única de estar seguro. Mas isso seria o resultado, depois de termos passado por vários mal entendidos. Depois de termos brigado, sofrido, se reconciliado. Uma reconciliação única, eu imagino você chegando do trabalho cansado e triste por não estar comigo, e eu uns quarteirões atrás me remoendo por dentro enquanto fazem uma festa no meu quarto, eu sem saber o que fazer, o que esperar, sendo só insegurança e mais nada. Até que como quem bebe e cria coragem, eu saio correndo quarto a fora sem dar satisfação a ninguém, e sem ninguém se importar com meu desespero por que sabem muito bem para onde eu corro. Corto as esquinas, a brisa é forte e corta os lábios que tanto querem ser seus. Paro esbaforido frente ao seu prédio, olho a única janela que me interessa, e você está lá, como se me esperasse. E mais uma vez eu me encontro fazendo o papel desse romeiro, que tanto me persegue. Não falamos nada, por que não precisa. Ali nós dois temos a certeza de que somos um do outro, e que o mundo pode acabar, por que até aquele momento a vida já teve sentido por demais.
E depois de tudo isso passar por nossas cabeças, você iria sorrir, e eu iria morrer de paixão mais uma vez. Então você desceria as escadas para me buscar, pararia alguns segundos ao ter a certeza de que era eu mesmo ali e me abraçaria perdidamente, um gesto tão forte que acordaria algumas luzes vizinhas. Nós subiríamos os degraus sem sentir e cairíamos no chão do nosso desejo, ao fechar a porta do seu esconderijo. O depois não precisaria importar.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009


- Quando agente viaja, sai da nossa cidade, muda a rotina, sei lá, agente presta mais atenção no céu, não é?

- Hurrum, quando agente tá apaixonado também.

domingo, 11 de outubro de 2009

'Vai desabar água
Algodão vai,
Desabar água
Pra lavar o que tem que limpar
Pra lavar o que tem
Vai desabar água e é pro nosso bem.'




pra lavar o que tem que limpar.

sábado, 10 de outubro de 2009

O sobrevivente


Impossível compor um poema a essa altura da evolução da humanidade.
Impossível escrever um poema – uma linha que seja – de verdadeira poesia.
O último trovador morreu em 1914.
Tinha um nome de que ninguém se lembra mais.

Há máquinas terrivelmente complicadas para as necessidades mais simples.
Se quer fumar um charuto aperte um botão.
Paletós abotoam-se por eletricidade.
Amor se faz pelo sem-fio.
Não precisa estômago para digestão.

Um sábio declarou a O Jornal que ainda falta muito para atingirmos um nível razoável de cultura.
Mas até lá, felizmente, estarei morto.

Os homens não melhoram e matam-se como percevejos.
Os percevejos heróicos renascem.
Inabitável, o mundo é cada vez mais habitado.
E se os olhos reaprendessem a chorar seria um segundo dilúvio.

(Desconfio que escrevi um poema.)

Carlos Drummond de Andrade