domingo, 12 de junho de 2011

A história de Antônio Chrysóstomo

CASO CHRYSÓSTOMO
O julgamento de um preconceito pela sociedade "progressista"

Existe um pedaço da história da imprensa canalha que eu preciso reiterar.

Jornalista Antônio Chrysóstomo
Antônio Chrysóstomo foi um jornalista e crítico de arte bastante conhecido no Brasil da década de 70. Fez parte do conselho editorial da primeira publicação brasileira dirigida aos homossexuais, o jornal Lampião de Esquina, e destacou-se no jornalismo como crítico de música popular brasileira. Antes de trabalhar na imprensa alternativa, passou por grandes veículos de comunicação como o jornal O Globo e a revista Veja – que, mais tarde, exerceria papel fundamental no caso com falsas acusações.

Em 1979, Chrysóstomo adotou uma menina de três anos de idade, chamada Cláudia, que vivia mendigando na rua com sua mãe. Ela era encontrada na porta da redação do Lampião de Esquina, onde o jornalista trabalhava na época. Um ano depois da adoção, ele foi denunciado pelas vizinhas do prédio e pela empregada por ter maltratado e estuprado a menina. 

Edição do Lampião de Esquina, primeiro
periódico brasileiro destinado
aos homossexuais 
Com a denúncia, formou-se uma espécie de Comitê de Caça a Chrysóstomo, que inclusive levou o jornal Lampião a sofrer intensas ameaças. Pouco depois, a menina foi retirada da custódia dele e levada para a Fundação Nacional do Bem-estar do Menor, onde passou a viver, desde então. 

O juiz pediu que Cláudia fosse examinada e os médicos legistas constataram integridade do hímen. Ainda assim, ele foi indiciado em processo criminal. A imprensa explorou o caso com sensacionalismo. O jornal “A Luta” do Rio noticiou que Chrysóstomo teria sido preso. No dia seguinte à falsa notícia, ele recebeu ordem de prisão preventiva. O seu trabalho no jornal Lampião foi usado como argumento para sua prisão. Uma matéria na Veja cria um perfil perverso do jornalista usando hipóteses como fatos. O texto diz que o jornalista promovia orgias sexuais em casa e chegara a ficar 48 horas seguidas num bar sentado sobre suas fezes e urina.

A Folha de S. Paulo, jornal tido como um dos mais liberais do país, se recusou a dar matéria dando voz ao acusado. E o Sindicato dos Jornalistas do Rio de Janeiro hesitou muito até fornecer à Justiça um atestado de que ele exercia a profissão havia mais de vinte anos. A imprensa ainda acusou a militância gay de aproveitadora e o Sindicato dos Jornalistas de irresponsável pela mobilização em defesa ao acusado. O Sindicato só defendeu Chrysóstomo frente a falta de comprovação das acusações.

Capa da edição 679,  da revista Veja,
 com a matéria de Chrysóstomo.
Depois de montada a história, a imprensa e a justiça brasileira ignoraram alguns fatos. Como o relatado por João Silvério Trevisan, no livro Devassos no Paraíso, onde uma das primeiras testemunhas, chamada para reiterar o caso, pediu desculpas, chorando, e disse que tinha sido forçada a mentir por um consenso das vizinhas, que o queriam fora do prédio. Um dos motivos para tirar Chrysóstomo do prédio era que ele fazia festas onde não se ouviam vozes de mulher. 

É preciso abrir um parênteses para um fato importante do Caso Chrysóstomo:  o Brasil vivia um momento de abertura política, e os “progressistas” – podemos incluir aí a imprensa da época - foram os que mais perseguiram o caso de forma irresponsável. Isso denuncia um movimento que se diz progressista e liberal, mas que age de forma contrária ao discurso. Um pouco o que a imprensa atual continua a fazer, não assumindo publicamente posições e se escondendo atrás de um discurso que só faz perpetuar, através das notícias, seus interesses próprios. 

Por fim, Chrysóstomo ficou alguns anos preso, condenado por atentado ao pudor, por maus-tratos a menor e por periculosidade social. Em 83, depois de cumprir parte da pena, ele foi julgado em segunda instância e considerado inocente. A alegação foi de que o julgamento anterior baseava-se não em provas mas em conjecturas. Quando saiu escreveu um livro sobre sua história, chamado Caso Chrysóstomo: O Julgamento de Um Preconceito. Dedicou o livro à menina Cláudia, que nunca mais viu. Morreu logo depois do lançamento de sua história. Até hoje, nenhuma retratação da imprensa.

7 comentários:

Artur Mattar disse...

ótimo o texto, fofo.

Artur Mattar disse...

lindo querido

Dani Koetz disse...

Mto bom Dé! Adorei!
É PRECISO relembrar erros do passado p/q possamos evitá-los no futuro.

Bjossssss

Dani Koetz disse...

Boa cria!

liba disse...

Mais uma vez a midia, sendo usada para oprimir a liberdade, acho um tanto contraditorio.

Rita Colaço Brasil disse...

Oi, André!
Parabens pelo texto em que busca recuperar a imagem e a memória de Chrysóstomo.
Sou doutoranda em História Social pela UFF e o caso dele faz parte de minha pesquisa.
Gostaria de estabelecer comunicação com você. Pode ser?
meu emeio: ritacolacobr@yahoo.com.br
No meu perfil vc encontra dados concretos sobre mim e sobre os meus 3 blogs.

RICARDO AGUIEIRAS disse...

E sinto dizer, o meio LGBT atual e a militância de hoje também não me parecem preocupados com a nossa História. Pelo contrário, reescrevem-na conforme suas crenças ideológicas e partidárias. O próprio episódio do famoso racha do Grupo Somos de Afirmação Homossexual revela isso. Sou uma testemunha viva dele e sei de militantes famosos que vieram bem depois me querem morto , contrários aos meus depoimentos e visão. Ficam, inclusive, felizes por que a maioria já morreu. Menos eu...risos, estão no aguardo...rsrs...
Qual "imprensa gay", hoje, nos contempla? falo "imprensa gay" por que LGBT nem existe... a Revista Junior? A G Magazine atual? O que nos salva são alguns blogs excelentes, como este aqui, o seu... Além de não resgatarem a nossa História, a vilipendiam. Nunca discutiram, também, o "Caso Patrício Bisso", onde um grande humorista, jornalista e desenhista gay foi arrogantemente ignorado e teve que sair do Brasil, por uma moral de militantes que, na ânsia pavorosa de serem aceitos compraram o que há de mais retrógrado e posaram de juízes. Triste tudo isso. Enfim, não me contento com pouco e o que me é oferecido é muito, muito pouco.
Felicidades e parabéns,
Ricardo Rocha Aguieiras
aguieiras2002@yahoo.com.br