sexta-feira, 16 de maio de 2008

Último capítulo
Machado de Assis

Há entre os suicidas um excelente costume, que é não deixar a vida sem dizer o motivo e as circunstâncias que os armam contra ela. Os que se vão calados, raramente é por orgulho; na maior parte dos casos ou não têm tempo, ou não sabem escrever. Costume excelente: em primeiro lugar, é um ato de cortesia, não sendo este mundo um baile, de onde um homem possa esgueirar-se antes do cotilhão; em segundo lugar, a imprensa recolhe e divulga os bilhetes póstumos, e o morto vive ainda um dia ou dois, às vezes uma semana mais. (...)

(...)Hoje, almocei, fumei um charuto, e debrucei-me à janela. No fim de dez minutos, vi passar um homem bem trajado, fitando a miúdo os pés. Conhecia-o de vista; era uma vítima de grandes reveses, mas ia risonho, e contemplava os pés, digo mal, os sapatos. Estes eram novos, de verniz, muito bem talhados, e provavelmente cosidos a primor. Ele levantava os olhos para as janelas, para as pessoas, mas tornava-os aos sapatos, como por uma lei de atração, interior e superior à vontade. Ia alegre; via-se-lhe no rosto a expressão da bem-aventurança. Evidentemente era feliz; e, talvez, não tivesse almoçado; talvez mesmo não levasse um vintém no bolso. Mas ia feliz, e contemplava as botas.
A felicidade será um par de botas? Esse homem, tão esbofeteado pela vida, achou finalmente um riso da fortuna. Nada vale nada. Nenhuma preocupação deste século, nenhum problema social ou moral, nem as alegrias da geração que começa, nem as tristezas da que termina, miséria ou guerra de classes; crises da arte e da política, nada vale, para ele, um par de botas. Ele fita-as, ele respira-as, ele reluz com elas, ele calca com elas o chão de um globo que lhe pertence. Daí o orgulho das atitudes, a rigidez dos passos, e um certo ar de tranqüilidade olímpica... Sim, a felicidade é um par de botas.
Não é outra a explicação do meu testamento. Os superficiais dirão que estou doido, que o delírio do suicida define a cláusula do testador; mas eu falo para os sapientes e para os malfadados. Nem colhe a objeção de que era melhor gastar comigo as botas, que lego aos outros; não, porque seria único. Distribuindo-as, faço um certo número de venturosos. Eia, caiporas! que a minha última vontade seja cumprida. Boa noite, e calçai-vos!


Resolvi nada escrever antes do Machado, ele fala por si só.

- Hoje, nos apresentamos na Lourival Sombra( se me recordo bem.), com uma prévia do que poder vir a ser o "Todos os Amores". E garanto-lhes foi ótimo.

Então é isso, boa noite e calçai-vos, como eu a calçei essa tarde.

sábado, 3 de maio de 2008


Somos loucos, insanos. Procuramos na cidade a fantasia dos nossos sonhos.

Transformando-a num lugar menos sem graça pelo menos para os nossos corações sedentos de alegria.



TudoNumaCoisaSó

terça-feira, 15 de abril de 2008

Teatro Mágico - Eles também me arrancam suspiros :)

e os momentos em silêncio diziam muito, e os olhares encontrados, tímidos (sem dúvida), também diziam muita coisa; uma noite assim, não me fazia suspirar no dia seguinte, há um bom tempo. e agora confesso, que meus suspiros tem aumentado gradativamente, e tenho suspirado sem nenhuma hesitação, sem nenhum medo de suspirar, mesmo entendendo o perigo que eu corro a cada suspiro dado, a cada olhar desencontrado, a cada sorriso que me vêm ao lembrar de você.




- o que mais posso dizer?


Suspiros :)

segunda-feira, 24 de março de 2008


Estava interneteando e quando me dei conta estava vendo uns blogs de pessoas que eu jamais esperaria ter tanta sensibilidade, para expor seus pensamentos/sentimentos em um blog, e pior(ou melhor?) assumi-los! Sim, amigos, não assumo as palavras aqui digitadas, apenas alguns amigos, um na verdade, deve saber, se ainda se lembrar, que eu escrevo para um blog. Como dizia, olhando esses blogs me ocorreu a vontade de escrever aqui. As vezes acho que sou um reflexo do que vejo nos outros, dos que eles ditam sobre si mesmo.Ao passo que acho perder muito da vida, me impondo tabus, e podes e não podes, impondo o que devo gostar ou o que devo odiar, como se fosse para me satisfazer, mas eu apenas, me perco, e perco a vida.Perco de aproveitar tudo e todos, desde o que me irrita ao que me fascina.Na verdade, é que não nem um nem outro me irrita ou me fascina, talvez é porque eu queira ser tudo e acabo sendo nada, sou apenas uma grande incerteza dentro de min mesmo.

Se chegares a ler o que escrevo, ou por engano, ou por descoincidência, não procures lógica, a angústia de um coração não procura lógicas.


Porque da foto? E tem melhor maneira de esquecer o que nos perturba do que a arte?

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

Um pensamento rápido como você.

É tarde, e me domina um ar arrependido das coisas que poderia ter feito e não fiz. Do beijo que poderia ter sido mais doce, do abraço que poderia ter sido como se fosse o último de nossas vidas, da cama que poderia ter sido mais bagunçada. De você, que poderia estar aqui comigo.

domingo, 3 de fevereiro de 2008

Não procure entender a min ou as minhas palavras

Digamos que nessa madrugada o passado me trouxe boas risadas.
Lembrar, o que eu fazia, ou melhor, o que fazíamos.
Ri das besteiras que eu escrevia na minha agenda no ano de 2005, não muito diferente das que escrevo aqui no ano de 2007. Qualquer dia trarei umas para se juntarem a essas outras. Mas não é por isso que escrevo hoje, escrevo, por que temo, temo o carnaval e suas oportunidades. Temo o modo como elas podem corromper as pessoas, e seus sonhos, e como elas indiretamente abalam a vida de muitos. E a minha.
Não quero isso pra você.

No momento, escrevo, sem entender, sem por que, apenas escrevo, por que me faz bem.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008


Conheci o “Meu Maria” ano passado através de um musical, do qual jamais esqueçerei, encontrei no menino grande, alguém muito igual à min, ao menos em suas crônicas. E vos apresento agora, Antônio Maria por Vinícius de Moraes.

Morrer num Bar
Vinícius de Moraes
Na morte de Antônio Maria
"Aí está, meu Maria... Acabou. Acabou o seu eterno sofrimento por tudo, e acabou o meu sofrimento por sua causa. Na madrugada deste mesmo 15 de outubro em que, em frente aos pinheirais destas montanhas tão queridas, eu me sento à máquina para lhe dar este até-sempre, seu imenso coração, que a vida e a incontinência já haviam uma vez rompido de dentro, como uma flor de sangue, não resistiu mais à sua grande e suicida vocação para morrer. Acabou, meu Maria. Você pode descansar em sua terra, sem mais amores e sem mais saudades, despojado do fardo de sua carne e bem aconchegado no seu sono. Acabou o desespero com que você tomava conta de tudo o que amava demais: o crescimento harmonioso de seus filhos, o bem- estar de suas mulheres e a terrível sobrevivência de um poeta que foi o seu melhor personagem e o seu maior amigo. Acabou a sua sede, a sua fome, a sua cólera. Acabou a sua dieta. Aqui, parado em frente a estas montanhas onde, há trinta anos atrás, descobri maravilhado que eu tinha uma voz para o canto mais alto da poesia, e para onde, neste mesmo hoje, você deveria chamar porque (dizia o recado) não agüentava mais de saudades - aprendo, sem galicismo e sem espanto, a sua morte. Quando a caseira subiu a alegre ladeirinha que traz ao meu chalé para me chamar ao telefone eram nove da manhã - eu me vesti rápido dizendo comigo mesmo: "É o Maria!". E ao descer correndo para a pensão fazia planos: "Porei o Maria, no quarto de solteiro ao lado, de modo a podermos bater grandes papos e rir muito, como gostamos...”. E ainda a caminho fiquei pensando: "Será que ltatiaia não é muito alto para o coração dele?...”. Mas você, há uma semana - quando pela primeira e última vez estivemos juntos depois de minha chegada da Europa, numa noitada de alma aberta -, me tinha tranqüilizado tanto que eu achei melhor não me preocupar. Eu sabia que seu peito ia explodir um dia, meu Maria, pois por mais forte e largo que fosse, a morte era o seu guia. Outra noite, pelo telefone, ao perguntar eu se você estava cuidando de sua saúde, você me interpelou: "Você tem medo de morrer, Poesia?". "Medo normal, meu Maria", respondi. "Pois olhe: eu não tenho nenhum", retorquiu você sem qualquer bravata na voz. "Só queria que não doesse demais, como na primeira crise. Aquela dor, Poesia, desmoraliza." Mas como eu descesse - dizia - para atender à sua chamada, e atravessasse o salão da casa-grande, e entrando na cabine ouvisse (como há catorze anos atrás ouvi a voz materna) a voz paternal de meu sogro que me falava, preparando-me: "Você sabe, Antônio Maria está muito mal...": e eu instantaneamente soubesse... - justo como naquela época soube também, quando a voz materna, em sinistras espirais metálicas, me disse do Rio para Los Angeles: "Sabe, meu filho, seu pai está muito mal..." - o nosso encontro marcado deu-se numa dimensão nova, entre o mundo e a eternidade: eu aqui; você... onde, meu Maria? - onde? Ah, que dor! Agora correm-me as lágrimas, e eu choro embaçando a vista do teclado onde escrevo estas palavras que nem sei o que querem dizer... Há uma semana apenas conversamos tanto, não é, meu Maria? Você ainda não conhecia minha mulher, foi tão carinhoso com ela... Tomamos uma garrafa de Five Stars no Cháteau, depois fomos até o jirau e terminamos no Bossa Nova. Eu ainda disse: "Você pode estar bebendo e comendo desse jeito?". "Por que, Poesia? Não há de ser nada... Qualquer dia eu vou morrer é assim mesmo, num bar..." Eu só espero que não tenha doído muito, meu Maria. Que tenha sido como eu sempre desejei que fosse: rápido e sem som. Mas é uma pena enorme. Você tinha prometido à minha mulher, a pedido dela, que recomeçaria hoje, nesta quinta-feira do seu recesso, no seu "Jornal de Antônio Maria", o seu "Romance dos pequenos anúncios", que foi uma de suas melhores invenções jornalísticas e onde eu era personagem cotidiano: você sempre a querer fazer de mim, meu pobre Maria, o herói que eu não sou. Mas por outro lado, sei lá... Você disse nessa noite, à minha mulher e a mim, que nem podia pensar na idéia de sobreviver às pessoas que mais amava no mundo: sua mãe, seus dois filhos, suas irmãs e este seu poeta. "E Rubem Braga...”, acrescentou você depois, brincando com ternura. "Eu não queria estar aí para ler quanta besteira se ia escrever sobre o Braguinha..." Não irei ao seu enterro, meu Maria. Daria tudo para ter estado ao seu lado na hora, para lhe dar a mão e recolher seu último olhar de desespero, de maldição para esta vida a que você nunca negou nada e o fez sofrer tanto. Daqui a pouco o sino da casa-grande tocará para o almoço. Verei minha mulher descer, triste de eu lhe ter dito (porque ela dorme ainda, meu Maria ... ) e de me deixar assim sozinho, sentado à máquina de escrever, com a sua morte enorme dentro de mim. 15 de outubro de 1964"

Nada vos poderei dizer mais. Apenas que viajem nas linhas desses poetas.